Sobre cachorros, filhos e o tipo de cuidado que ninguém ensina com palavras

Por Zé Luiz · 13 de setembro de 2026

Durante os primeiros cinco anos do meu filho mais velho, morávamos num apartamento minúsculo em Nova York. Quando assinamos o contrato de aluguel, eu já grávida de seis meses, a cláusula que proibia animais de estimação não me incomodava em nada. Eu, como tantas mães de primeira viagem, duvidava da minha capacidade de cuidar daquele bebê, portanto, acrescentar os cuidados com mais um ser vivo à minha lista crescente de responsabilidades era algo que eu sequer cogitava.

Preocupada demais em sobreviver aos meus primeiros meses enquanto mãe, não levei em consideração que eu e meu marido pertencemos ao grupo de sortudos que teve a infância marcada por um animal de estimação. Marcada daquele jeito que te faz usar o nome do bichinho como senha trinta anos depois. Foi só quando atravessamos os intensos primeiros dois anos do nosso filho que começamos a conversar sobre o desejo de que ele tivesse a mesma experiência. A chegada da nossa segunda filha e a mudança para uma casa com quintal cimentaram a nossa decisão: teríamos um cachorro.

E assim Barnaby chegou à família. Não por via marítima; fomos de carro buscá-lo no Queens. (Não pude me conter aqui com a referência a Barrabás no livro A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Prova que até os animais de estimação da ficção deixam suas marcas.) Resgatado por uma associação beneficente, Barney estava sendo cuidado por uma família temporária, e num dos dias mais quentes do ano, com duas crianças pequenas, fizemos a viagem de quatro horas para trazê-lo para casa. Da raça Cão de Montanha dos Pirenéus, ele tinha quatro meses e já era gigante.

Em poucas horas sob nossa tutela, o mais novo integrante da família vomitou no carro, fez suas necessidades no tapete da sala e mastigou o fio do aspirador — justamente o aspirador que precisaríamos mais do que nunca, a julgar pelo tanto de pelo que ele soltava.

Com o passar dos dias, a lista de estragos só crescia: o coelho de pelúcia favorito da minha filha, meu fone de ouvido, todos os utensílios de madeira da bancada da cozinha, que ele alcançava sem o menor esforço. E essa nem era a parte mais desafiadora — alguém já teve a experiência de gerenciar as interações de um filhote de cachorro com dois filhotes de humano? O caos. Com frequência, eu ligava para meu marido no trabalho só para que ele pudesse compartilhar do meu desespero.

Em março, Barnaby completou cinco anos. A família cresceu mais uma vez com a chegada da nossa terceira filha, e o que posso dizer é que os benefícios de ter um animal de estimação ao longo desses anos superam, de longe, os desafios do período de adaptação e a rotina de cuidados que um cachorro exige.

Foto: Arquivo Pessoal

Apesar de muita gente achar que cachorro dentro de casa é fonte de doença, a ciência aponta para o oposto disso: a convivência diária com animais amplia a variedade de microrganismos no ambiente doméstico e ajuda o sistema imunológico da criança a se equilibrar. É a chamada “hipótese da higiene”, em que a exposição precoce treina as defesas do corpo em vez de deixá-las hipersensíveis. A minha pequena amostra de três crianças corrobora essa hipótese: nenhum dos meus filhos tem asma ou alergias. O trabalho de aspirar pelo é um preço baixo a se pagar para manter meus pequenos longe de corticoide.

Sabe todo aquele gerenciamento das interações iniciais dos meus filhos com o Barney? Era bem estressante, não vou mentir. Foram meses fazendo o trabalho de um disco arranhado: “Carinho. Seja gentil. Assim machuca. Assim ele não gosta. Preste atenção no rabinho dele. Olha só, ele está mostrando os dentes.” Animais não falam; eles comunicam o que sentem através do corpo. Essa leitura emocional não verbal ajuda a criança a exercitar a atenção às emoções do outro, habilidade que se transfere para relações humanas. Crianças que têm interações frequentes e compassivas com os animais apresentam maior empatia e comportamento pró-social (agir voluntariamente para beneficiar o outro — ajudar, compartilhar, confortar — sem que ninguém esteja obrigando).

A longo prazo, a dinâmica com um animal em casa se mostrou muito benéfica, especialmente para o meu filho mais velho. Com frequência, ele busca o Barnaby para se regular quando volta da escola. Com as demandas acadêmicas se acumulando, agora que ele tem onze anos, é comum eu encontrar os dois deitados juntinhos, cabeças coladinhas, e a mão dele deslizando devagar sobre o pelo do nosso grandão. Não foi algo ensinado, foi natural, mas existe uma explicação: esse tipo de toque repetitivo e rítmico ativa o sistema nervoso parassimpático — o modo “descansar e digerir”, oposto ao estado de luta ou fuga. A frequência cardíaca cai, pressão arterial cai, músculos relaxam e há liberação de dopamina e serotonina junto. Meu filho não precisa pensar, não precisa elaborar respostas sobre como foi seu dia e a mim, cabe observar essa linda amizade.

Animais de estimação ajudam crianças ansiosas porque oferecem algo raro: presença sem julgamento. Diferente de pessoas, um bicho não avalia desempenho, não cobra resposta, não espera nada além de companhia. Essa ausência de pressão social baixa a guarda da criança, desacelera o corpo e cria um espaço onde ela pode simplesmente estar, sem performar. Os benefícios da presença de um animal são reconhecidos até por instituições educacionais. Ace é o cachorro da escola dos meus filhos. Toda manhã, ele recebe as crianças na porta ao lado do diretor e oferece suporte emocional pelo resto do dia.

O vínculo de uma criança com seu bicho de estimação é também um dos raros vínculos em que a criança pratica cuidar, não só ser cuidada. Encher o potinho de água, escovar o pelo, levar nos passeios: tarefas pequenas, quase banais, mas que carregam um peso pedagógico que nenhuma lição de moral consegue igualar. A criança aprende que suas ações têm consequências reais sobre outro ser.

Repito: os benefícios são inúmeros. Serei sempre defensora da ideia de que toda criança merece conviver com um animal. No entanto, faço questão de fazer um apelo: não adote um bichinho só porque sua criança pede. Tampouco nutra a esperança de que a criança cuidará dele. Por mais que a criança ame animais e peça muito por um, ela não tem maturidade para fazer essa escolha nem para arcar com as responsabilidades envolvidas. Os adultos precisam estar muito cientes de que precisarão mediar a relação entre criança e bicho, ao menos no início, além de assumir todas as responsabilidades de cuidar de um animal — que não são poucas. Bichos exigem disponibilidade de tempo, carinho e dinheiro, e essa conta é sempre dos adultos, não das crianças. Mas se existe em você uma pontinha de desejo pela experiência de ter um animalzinho como parte da família, não deixe o medo do trabalho falar mais alto. Tudo que vale a pena de verdade nessa vida demanda esforço, e receber o amor de um serzinho que pede tão pouco em troca é uma das coisas mais lindas da vida.

Como eu disse antes, Barnaby tem cinco anos. A expectativa de vida de um Cão de Montanha dos Pirenéus é de dez a doze anos. Tenho lágrimas nos olhos ao escrever que nosso “gigante gentil” já está na metade da vida, uma vida que ele tão generosamente dedica a amar e proteger minha família. Sempre atento enquanto as crianças brincam no quintal, sempre deitado de frente para a porta nas noites em que meu marido está de plantão. Não quero nem imaginar o dia em que meu sofá não esteja cheio de pelos, em que o chão da cozinha não esteja sujo de pegadas. Cinco anos atrás, resgatamos um cachorro e, em troca, ele nos resgata todos os dias.