Com o sinal verde concedido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde 2022, a adesão do Brasil ao chamado “clube dos ricos” anda a passos lentos. Ao R7, o
Ministério das Relações Exteriores (MRE) afirmou que o acesso do Brasil ao grupo ainda “está sob exame do governo brasileiro, à luz do interesse nacional e das prioridades da política externa do país”. No entanto, para especialistas, o tema perdeu prioridade nos primeiros meses do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A OCDE reúne 38 países, entre os mais ricos do mundo. A aproximação do Brasil com a organização começou em 1991 e foi aperfeiçoada por meio da adesão a grupos e comitês nas décadas seguintes. A intenção de ser membro pleno do “clube dos ricos” foi formalizada em 2017, durante o governo Michel Temer, e considerada prioridade da política externa brasileira a partir de 2018, na gestão Jair Bolsonaro.
Oficialmente, o governo Lula diz que há interesse em integrar o organismo. No entanto, as discussões sobre o acordo do Mercosul com a União Europeia e os acordos de cooperação com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) têm ganhado mais atenção nos últimos meses.
Dos 268 instrumentos exigidos pela organização para entrada na OCDE, o Brasil aderiu a 118, restando 150. As regras dizem respeito a diversas áreas, como governança, tributação, educação e meio ambiente.
Vantagens e desvantagens
O Brasil já integra a OCDE como convidado, mas uma adesão brasileira plena à organização iria conferir ao país um selo de viabilidade de investimentos. Outro benefício para o Brasil tem a ver com a possibilidade de o país se tornar uma espécie de avalista junto ao credor no exterior. É o que explica o cientista político e pesquisador da Universidade de Helsinque, na Finlândia, Kleber Carrilho.
“O Brasil ganha uma percepção de país estável economicamente. Isso é bom para os negócios, para as empresas e para a concorrência”, afirma. O ingresso na OCDE também pode aumentar as chances de celebração de acordos econômicos com países mais desenvolvidos, além de aperfeiçoar a integração aos mercados internacionais. A adesão facilita esses negócios, porque o país começa a ser visto como um detentor do selo de boas práticas políticas e econômicas.
No entanto, o especialista destaca que há uma contradição entre a entrada do Brasil no grupo e o pensamento ideológico do atual governo. “O grande ponto para a participação ou não do Brasil [na OCDE] é sobre a disposição de o Estado se ausentar da economia. Essa ausência é defendida pelos liberais, mas não é a característica de pensamento econômico do entorno do atual presidente. Talvez, por isso, o ingresso na OCDE não esteja entre as principais preocupações do presidente”, afirma.
Apesar de os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e da Fazenda, Fernando Haddad, defenderem publicamente a aproximação de países da OCDE, há a preocupação com a interferência da organização no sistema tributário e econômico do governo. Um exemplo é a questão da extinção do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) cobrado sobre o câmbio e cartões de crédito. Com as mudanças, o governo deixaria de arrecadar R$ 19 bilhões até 2029.
Existe uma questão criada no imaginário de que o Brasil estaria rico a partir do momento em que entrasse na OCDE, e muita gente vendeu essa ideia. A questão é que o mundo está passando por uma transformação no jogo de poder. O jogo geopolítico está sendo disputado de uma forma muito intensa neste momento. Então, as estruturas de governança e que reúnem os países também estão se reinventando. É possível que nos próximos anos a própria ONU tenha que passar por uma reformulação.
KLEBER CARRILHO, CIENTISTA POLÍTICO E PESQUISADOR NA UNIVERSIDADE DE HELSINQUE, NA FINLÂNDIA