
"Eles não gostam dos professores mais rígidos, os que pegam leve é que são bons. No início eu batia de frente e recebi ameaças de morte". O relato de violência e desânimo é de Arnaldo Cezar Borges. Professor de geografia há oito anos ele lamenta ver a categoria, neste 15 de outubro, ter pouco a comemorar e muito para reclamar. Pior que isso, é ver os anos se passarem e as reclamações continuarem sendo as mesmas com um agravante: a violência sofrida dentro do ambiente de trabalho.
Arnaldo avalia que houve poucos avanços na categoria e que dentre os problemas enfrentados em sala de aula, o que mais se destaca é a violência. “A carreira não evoluiu muito não, desde criança que são as mesmas reclamações. Há um conjunto de fatores, mas, o pior é a violência, a gente se sente refém. Tem certos alunos que não podemos cobrar. Isso desestimula outros a seguirem a carreira”, apontou o professor.
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Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, a Paraíba possui 57.383 professores, desde a creche até o ensino superior. E eles ainda se queixam de problemas antigos, como baixos salários, indisciplina e a falta do acompanhamento dos pais.
Arnaldo Cezar cita, ainda, a falta de estrutura. “A estrutura influencia porque os estudantes têm interesses por tecnologia, utilizam internet o tempo todo, nem toda escola dispõe disso. O data show, a escola tem dois. Mas, o ideal é que cada sala tivesse um já instalado. Às vezes não está disponível ou tem o trabalho de montar, desmontar, deslocar, que gasta até 20 minutos da aula, que já é curta. O uso do celular é proibido para não atrapalhar. Os alunos questionam a grande quantidade de disciplinas, perguntam porque estudam determinados conteúdos se querem seguir outra profissão. Porém, ter uma instrução ampla é importante”, ressaltou.
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R$ 1.665,12 é o piso salarial do professor com licenciatura plena na Paraíba.
Baixa procura
Com tantos problemas e nenhum incentivo a profissão do professor tem tido cada vez menos procura. Marisete Fernandes, vice-diretora do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFBP), revelou o desinteresse dos jovens pelo magistério. “É um campo profissional que tem sido minimamente procurado pelos jovens pela desvalorização do professor, que vem em consequência dos baixos salários, péssimas condições da oferta do ensino, estrutura da escola (edificações, equipamentos, material didático)", falou.
Marisete elenca os pontos que afastam os mais jovens da profissão. "Há superlotação nas salas de aula, o excesso de carga horária. É preciso distribuir as 40h entre sala, planejamento e atividades em casa. E com o baixo salário, muitos precisam exercer trabalho em mais de uma instituição, pública ou privada, para se manter e ficam sobrecarregados", afirma a professa.
Ela é mais uma a citar a violência como agravante. "Além de tudo isso ainda tem a violência, que não é só física. A forma de tratamento prestada, o aliciamento de crianças e adolescentes pelas drogas tem reflexo em sala de aula. Falta espaço apropriado, laboratório, política que defina os gestores educacionais por mérito e não por nomeação, com gestão democrática e eleição. Na Paraíba, a maioria é indicado pelos políticos, o que interfere negativamente”, destacou.
Além da baixa procura, a evasão também preocupa. A falta de professores em determinadas disciplinas já ocorre e pode se agravar em alguns anos. “Apenas 2% de quem faz Enem escolhe licenciatura e depois migra para outros cursos. O governo precisa estar atento a essa questão, porque o problema é sério. O desenvolvimento do país depende da educação. Já está começando a carência em matemática, química, física", relatou Marisete.
A professora lamenta a falta de reconhecimento da importância do papel dos docentes na sociedade. "Mais sério que a falta de reconhecimento dos pais é o não reconhecimento dos poderes públicos. É uma estrada de duas vias, é preciso ser valorizado, com salário digno. O assédio ainda existe, o medo de reclamar das condições ruins e perder o emprego. Tem gente com contrato temporário de 15, 20 anos. Vão renovando para não abrir concurso público. E aí contratam os correligionários, os que votaram, professor sem titulação. Absurdo! Na educação infantil, tem pessoas que não são professores e ganham um salário mínimo para trabalhar 10 horas por dia nas creches".

Paralisação estadual
Nessa sexta-feira (14), os professores da rede estadual realizaram uma paralisação para discutir os problemas do magistério e planejar ações. A principal reivindicação é a aprovação do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração, elaborado há 13 anos. “Esse ano, a comissão para reforma do PCCR se reuniu e a APLP não foi convidada para participar. No próximo dia 26, entregaremos nossa nova proposta ao governador e aos deputados. Se não for aprovado logo, o prejuízo será de 10 anos", explica Bartolomeu Pontes, presidente da APLP.
Ele conclui que os problemas da categoria não se resolvem por puro desinteresse da classe política. "Fui professor e diretor de escola por 40 anos. Os problemas da profissão são os mesmos e nunca são resolvidos porque não há vontade política. Os desafios são a falta de qualificação, salário, falta de atrativo, de concurso público (grande parte é temporário)”, declarou Bartolomeu.
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