Chateado com o Sport, Falco pede calma com Dunga na seleo e diz que Totti nico

07/05/2016

 Dezenove dias após ter sido demitido pelo Sport, Paulo Roberto Falcão, 62, ainda não entende os motivos de sua saída. Sexto colocado com o time no último Campeonato Brasileiro, semifinalista da Copa do Nordeste [eliminado pelo Campinenese] e semifinalista do Campeonato Pernambucano, o treinador gaúcho lamenta não ter tido tempo para conduzir a equipe na Série A nacional deste ano.

"O trabalho que estava sendo conduzido tinha como objetivo a conquista de uma vaga na próxima Libertadores. Ano passado faltou uma vitória. Terminamos três pontos atrás do São Paulo [último classificado à Libertadores] e um atrás do Internacional, que tem quatro vezes o orçamento do Sport", disse Falcão àESPN.

Desempregado, Falcão tem aproveitado o tempo livre para se atualizar enquanto aguarda o convite de algum time. Ao falar sobre a situação dos técnicos no Brasil, apontou a necessidade de uma reformulação geral e avaliou como injustas as cobranças a Dunga, que tem o trabalho na seleção brasileira contestado.

 

"Dunga foi criticado em 2010. A seleção teve um momento ruim, que foi o segundo tempo contra a Holanda [nas quartas da Copa do Mundo]. Mas não dá para contestar os números dele na seleção. As críticas são um pouco de preconceito", disse Falcão

O ex-jogador de Internacional, Roma e São Paulo também falou sobre o título do Leicester na Inglaterra, do Osasco Audax finalista do Campeonato Italiano e da ainda incerta despedida do ídolo Francesco Totti da Roma. Confira a seguir: 

ESPN - O Sport terminou o Brasileiro em sexto. Foi até a semifinal da Copa do Nordeste e estava na semi do Pernambucano. Por que foi demitido?
Paulo Roberto Falcão - Foi uma surpresa diante de tudo isso que você enumerou. Não seria uma surpresa em outro Estado, mas no Sport foi pelo histórico do clube com o Eduardo Baptista, Ele fez um trabalho de longo prazo e com resultados que também não chegaram a acontecer. Claro que não por culpa do Eduardo. Futebol tem esses momentos de altos e baixos. Mas ele foi mantido mesmo tendo ficado muito tempo sem ganhar. Esse histórico me fez considerar o Sport um clube legal para se trabalhar. Eles já tinham me convidado em 2014, mas eu não pude ir porque tinha um compromisso para trabalhar durante a Copa do Mundo por uma emissora de TV. Quando recebi novamente o convite decidi aceitar. O trabalho no final do ano passado foi bom. Então, me surpreendi com a demissão. Cheguei a duas semifinais, com o time se reorganizando, jogadores vindo de fora. Formação de grupo requer tempo para que os jogadores se afirmem. Realmente foi surpresa. Não que no Brasil seja diferente, lamentavelmente, mas eu achei que seria diferente no Sport.

ESPN - Ao chegar ao Sport em março, Diego Souza disse que o trabalho no clube era para superar a campanha do último Brasileiro. A expectativa era essa?
Paulo Roberto Falcão - 
O time desse ano foi montado para isso, mas precisa de tempo. Perdemos 50% do time titular. Até montar um novo grupo leva tempo. Não conseguimos todas as peças de reposição porque tinha dificuldade de achar. Às vezes achava o jogador que poderia encaixar, mas o preço não permitia o investimento da diretoria. Foi uma luta de todos. Por ser uma luta de todos achei que a gente podia deixar rodar mais um pouco. A demissão ocorreu numa segunda-feira após o Sport perder a vaga na final da Copa do Nordeste nos pênaltis para o Campinense, que já tinha um time formado. As coisas no futebol são assim. Não deveriam ser. Se continuar assim a gente vai patinar e não vai sair do lugar. Temos de reformular o futebol. Todos nós que estamos envolvidos: jogadores, treinadores, médicos, dirigentes, empresários e impressa. A gente tem de entender que as coisas não mudam de uma hora para outra. Você tem de acreditar no planejamento e seguir. Mas existe muita coisa no periférico que atrapalha.

ESPN - O que quer dizer com periférico?
Paulo Roberto Falcão - 
Tudo o que está fora do controle do treinador. O controle é o treino, o planejamento, o jogo. Fora isso o treinador não tem controle de mais nada. Se você conseguir que isso de fora não entre no teu trabalho, tudo bem, mas hoje com redes sociais é um troço maluco. Tem gente que diz o que quer de uma maneira absurda. Sem comprometimento e com muita agressividade. Não é só no futebol. É em tudo. No futebol, todo mundo acha que entende porque bate uma bola de vez em quando. Mas futebol é muito mais complicado. Você mexe com um grupo de jogadores, com a paixão do torcedor. Alguém tem de pensar. Alguém tem de ser o lado racional. O futebol deveria ser mais racional por parte das pessoas que o comandam. Digo isso de forma geral. Todos têm de ser mais racionais, com exceção do torcedor. Quem lida com futebol não pode se passional em relação ao que acontece no periférico. Não digo isso sobre o Sport. Estou falando de modo geral sobre o futebol brasileiro.

ESPN - O Sport deu condições para o senhor realizar o trabalho que deseja?
Paulo Roberto Falcão -
 É um lugar legal, tem um bom centro de treinamento. É um clube estruturado. Tem uma torcida apaixonada. Realmente havia condições de fazer um bom trabalho no Brasileito. Tem time para isso. Foi deixado isso lá. É um time que deve dar resultado. A meta no Brasileiro é brigar pela vaga na Libertadores. Quase conseguimos ano passado. Faltou uma vitória. Nós ficamos a um ponto do Internacional, que tem quatro vezes mais o orçamento do Sport. Então, há material para dar frutos.

ESPN - O senhor tem algo em vista?
Paulo Roberto Falcão - 
Quero trabalhar o mais rápido possível. Ainda não conversei com nenhum clube e o Campeonato Brasileiro começa no próximo fim de semana. Preciso ter um pouco de calma, mas a intenção é ter um clube para trabalhar.

ESPN - Em 2014, o senhor viajou para a Europa para fazer observações. Esteve no Real Madrid. Pensa em fazer algo semelhante?
Paulo Roberto Falcão - 
Agora não. Os campeonatos na Europa estão terminando. Eu gosto de viajar, de acompanhar e observar o trabalho de outros técnicos. Fiquei feliz com o Leisceter ganhando a Premier League. Muita gente disse: ‘É a prova que dá para ser campeão sem contratar‘. Realmente dá, mas o trabalho leva muito mais tempo. Não dá para pensar que essa seja a regra. O Manchester, o Barcelona, o Real Madrid, enfim, eles contratam quem eles querem. Quem faz a diferença são os jogadores.

ESPN - O que achou do trabalho do técnico Claudio Ranieri [comandante do Leicester]?
Paulo Roberto Falcão - 
Eu o conheço, não cheguei a jogar contra ele, mas ele é um cara que merece, que estudou, que batalhou para alcançar esse objetivo. Ele já treinou clubes grandes e chegou à glória pelo Leicester. O título fica para ele, para a história dele, e não apenas para o Leicester. Ele merece porque é boa gente. É trabalhador. Pegou um time que era cotado para cair. Com pouco investimento. Ninguém acreditou. Ele aceitou o desafio.

ESPN - Vê alguma semelhança com o trabalho do Fernando Diniz no Osasco Audax?
Paulo Roberto Falcão - Eu gosto bastante da forma do Audax jogar. É um time que sai jogando com a bola, trabalhando a bola a partir do campo de defesa, com participação do goleiro. Não tem chutão. Eu gosto muito disso. Gosto de times que joguem. Fizemos um trabalho assim no Sport no último Campeonato Brasileiro.

ESPN - Dá para um clube grande adotar essa forma?
Paulo Roberto Falcão - 
Evidente que sim. Dizem quem a torcida dos grandes não têm paciência, mas não é o time que não tem paciência. É alguém que não tem paciência. Quem é que não tem? É a direção? Por isso que eu te disse: o futebol tem de passar por uma reformulação. Jogadores, treinadores, diretores e impressa. Esse processo de dar mais tempo. De fazer as coisas no tempo correto. Para dar esse tipo de padrão é preciso muito tempo de treino. Depende de muitas coisas. O goleiro tem de saber jogar com os pés. O técnico tem de dar confiança aos jogadores. O treinador tem de criar alternativas para o time saber sair jogando. Se o time perder a bola, a responsabilidade tem de ser do treinador. O balão é um recurso, mas é uma ilusão de dez segundos. A bola vai e volta. Mas muitas vezes o time tocando bola na defesa deixa as pessoas que estão na direção enlouquecidas: ‘Vou morrer do coração‘. Por quê? Veja se os times europeus dão balão. É preciso dar tempo aos técnicos.

ESPN - Quais são seus técnicos favoritos?
Paulo Roberto Falcão - 
Não tem um só. Eu vou falar dos estrangeiros em atividade por razões óbvias. Gosto do Carlo Ancelotti, que já ganhou tudo e onde vai ele sai vencedor. Tem uma maneira light de trabalhar. Gosto do Pep Guardiola e do José Mourinho. Gostava muito do Arrigo Sacchi, que já parou. Ele revolucionou o futebol. Tem o Fabio Capello, o Guus Hiddink, que fez um excelente trabalho na Coreia do Sul, e o Rinus Michel, responsável pela última revolução tática no futebol mundial.

ESPN - E o Telê Santana?
Paulo Roberto Falcão - Ele não foi meu técnico, somente por um período na seleção. Tive pouco tempo de convívio com ele. E a gente só fazia coletivos. Ele achava que dava entrosamento melhor. Eu sempre digo que a diferença é feita pelos jogadores.

ESPN - Como vê as críticas ao Dunga neste momento? Há pressão pela saída dele da seleção brasileira, especialmente após a última rodada da eliminatória.
Paulo Roberto Falcão - Não conheço nenhum treinador na história da seleção que não tenha sido contestado. Talvez o Telê em 1982 foi uma exceção, mas assim mesmo houve um jogo que cobraram/cornetaram ele para colocar o Batista. E o Batista nem estava no banco. Por isso repito: nós temos de melhorar o futebol, tem de crescer. Senão não vamos sair do lugar. A contestação atrapalha demais o trabalho. O jogador acompanha tudo. Ele fica inseguro com o trabalho. Não sabe se o treinador vai continuar.

ESPN - As críticas a Dunga são justas?
Paulo Roberto Falcão - Dunga foi criticado em 2010. A seleção teve um momento ruim, que foi o segundo tempo contra a Holanda [nas quartas da Copa do Mundo]. Mas não dá para contestar os números dele na seleção. As críticas são um pouco de preconceito. Botaria outro? Não tenho que escalar treinador da seleção. Acho que o treinador precisa ter tranquilidade para trabalhar. A seleção não consegue treinar e nós não temos como antigamente cinco craques... Antigamente quando estava tudo ruim colocava um craque e ele resolvia. Hoje temos ótimos jogadores, grandes jogadores, mas não temos craques. Não temos Ronaldo, Romário, Rivellino, Pelé, Ronaldinho e Rivaldo... um monte de gente. Eles resolviam. Hoje precisa de tempo para fazer um time. Não tem de buscar craque. A Alemanha é um exemplo. Não tem nenhum craque, mas tem um time com cinco/seis jogadores acima da média. Eles jogam juntos, no mesmo país. A Alemanha mereceu ganhar a última Copa. Preparou todos os detalhes. Fez um centro de treinamento no Brasil. Se preocupou até com a camisa reserva. A gente não pensa muito porque ainda acha que é o maior futebol do mundo. Não somos mais. Nós temos uma arrogância no futebol.

ESPN - O que prevê para a seleção? Tem Copa América Centenário, Olimpíada...
Paulo Roberto Falcão -
 A tendência com a sequência da eliminatória é a seleção encorpar porque vai pegar entrosamento jogando. O treinamento que o Dunga não terá tempo de dar será adquirido nos jogos da eliminatória. Jogar o torneio é bom por isso. Você acha um time. Em 2014, a seleção teve grandes vitórias com o Felipão antes da Copa, mas não teve o enfrentamento da eliminatória. O próprio Dunga ganhou de times pesados nessa nova passagem e agora tem a eliminatória para achar o time. A gente tem de ter um pouco de calma. A dificuldade para todo treinador é administrar a expectativa que se cria em relação ao que você tem em mãos e a expectativa que existia com o time de 20 anos atrás. Veja a expectativa não diminuiu, mas a qualidade sim. O cenário é de pressão. Com Copa América Centenário, Olimpíada, sequência da eliminatória, mas sempre foi assim. É preciso se adaptar.

ESPN - Mudando de assunto, como vê o atual momento do Totti na Roma? Ele tem contrato até o final da temporada. Próximo dos 40 anos, a torcida quer que o clube renove o contrato dele, mas ainda não há uma definição.
Paulo Roberto Falcão - Totti é extarordinário. Não sei como ele está hoje, até porque não tenho conseguido acompanhar os jogos da Roma. Muitas vezes estava trabalhando/treinando ou jogando e os horários não permitiam ver as partidas da Roma. Totti tem uma qualidade absurda. Não sei como os diretores estão administrando a questão contratual dele. É algo que ele próprio tem de resolver. Não sei se ele quer ficar. Esse é o primeiro passo. Depois a Roma precisa ver a sua situação. Seria uma irresponsabilidade minha dizer se ele deve  ou não renovar. Ele deve sentar com a diretoria e pensar no que é melhor.

ESPN - O senhor é o ‘Rei de Roma‘. Ninguém discute sua grandeza na história do clube, mas como o senhor enxerga Totti neste momento? Ele tem a mesma dimensão?
Paulo Roberto Falcão - 
A história de ‘rei‘ é um exagero. A vaidade gosta, mas a inteligência proíbe. Os torcedores simbolizaram em mim uma conquista que a Roma não tinha há 40 anos. Eles estavam muito tempo sem ganhar e minha geração ganhou muito [foi um título Italiano e três da Copa da Itália, além de um vice da Copa dos Campeões]. Minha geração é que fez a torcida da Roma ficar exigente. Hoje eles cobram títulos por causa daquilo que contruímos nos anos 1980. Mas o Totti é extraordinário. Ele tem essa dimensão, sim. É o grande ídolo da Roma. Merecia ter vencido o prêmio ‘Bola de Ouro‘. Só não venceu porque a Roma não chegou ao título europeu. Na minha época eu não venci porque o prêmio não podia ser dado para não-europeus. Sul-americanos ficavam fora da eleição. Mas o Totti merecia correndo esse título. É um dos melhores jogadores que conheci na Itália. Tem muita qualidade para bater na bola. Ele tem uma dimensão absurda na Roma. É muito grande. É único.

ESPN - Quais são as suas melhores recordações pela Roma? 
Paulo Roberto Falcão -
 O título italiano que ganhamos parou a cidade. A Roma deveria ter ganho já no meu primeiro ano, mas um erro de arbitragem acabou nos prejudicando. Lembro que enfrentamos a Juventus, em Turim, faltando três rodadas. Chegamos a fazer um gol legítimo com Turone, mas foi anulado pela arbitragem. Aquele gol teria nos dado o título ao final do campeonato. Perdemos a taça por dois pontos. É curioso porque em 2006 estava trabalhando na cobertura da Copa do Mundo da Alemanha quando estorou o escandâlo de arbitragem na Itália. Curiosamente um dos dirigentes citados naquele ano tinha sido árbitro naquele jogo contra a Juventus, em 1981. Até hoje brinco com meus amigos italianos: ‘Quero meu título italiano‘. Nos tiraram aquele título. No mesmo ano enfrentamos a Juventus na semifinal da Copa da Itália e ganhamos por 1 a 0, em Turim. A polêmica sobre o gol anulado voltou porque provamos que tínhamos time para sermos os campeões da Itália naquela temporada.

ESPN - Inclusive, a Roma foi campeã daquela Copa da Itália contra o Torino.
Paulo Roberto Falcão - 
Sim, é verdade. Fomos campeões jogando em Turim, no estádio Comunale. O primeiro jogo tinha terminado empatado por 1 a 1. O Torino vencia o segundo jogo por 1 a 0, mas ocorreu uma falta no Scarnecchia, que era nosso ponta. Eu peguei a bola e disse: ‘Levanta, levanta...‘. Cobrei rápido para ele, ele entrou na área e sofreu pênalti para a Roma. Di Bartolomei cobrou e empatou. Na decisão por pênaltis, eu fiquei com a última cobrança. Nunca fui de cobrar pênaltis, mas recordo que quando fui bater eu olhei para o banco da Roma e fiz um gesto com as mãos dizendo ‘terminou‘. Se eu errasse, a gente teria a série alternada, mas eu fiz. É uma bela recordação...


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