Terror e direita ameaam mudar futebol europeu

12/12/2015

 Radja Nainggolan tem o que se pode chamar de “cara de mau” – ou, de acordo com as próprias palavras, “um visual assustador”. Mas aparentemente não foram só o cabelo moicano e as tatuagens que apavoraram os hóspedes de um hotel em Bruxelas, ao ponto de a história acabar com polícia e a suspeita de que o jogador era um terrorista. O episódio, ocorrido pouco depois dos atentados do Estado Islâmico em Paris, diz muito sobre o que pode se tornar a Europa nos próximos anos – e isso inclui o futebol.

O volante da Roma é belga de nascimento, filho de pai indonésio, que abandonou a família quando Nainggolan tinha 5 anos. O jogador é símbolo do que se tornou nos últimos anos o futebol europeu, que se nutriu de gente como os pais do atleta para formarem seleções multiétnicas, graças a movimentos migratórios com origens em zonas de conflito armado e ex-colônias pobres. Mas após os ataques na França e a possível reação racista no Velho Continente pode mudar a cara de muitos times.

Só a Bélgica de Nainggolan tem pelo menos oito atletas estrangeiros ou com descendentes de países da África, Ásia e dos Balcãs. O mesmo acontece com várias equipes que estarão na Eurocopa em 2016, na França, principalmente os donos da casa, com quase dois times de “estrangeiros”. 

Guinada à direita

Na política, a extrema-direita, capitaneada pela Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen, já adotava há muito um discurso contra os migrantes. Depois dos atentados, o grupo aproveitou para exibir mais músculos. E ainda que a popularidade de François Hollande tenha subido, a FN obteve vitórias expressivas nas eleições regionais do último domingo.

Se os franceses derem uma guinada à direita, e se o restante da Europa reagir de forma semelhante, dificultando a entrada de migrantes, o futebol pode sentir os efeitos, inclusive nos clubes.

A questão é: a Europa, cujo futebol absorve milhares de jogadores de fora, vai se fechar aos estrangeiros?

“Esse é um dilema da globalização no futebol. Se a tendência deste esporte é assimilar as diferenças e integrar, embora a integração seja regida por um estatuto profissional privilegiado da condição de futebolista, as suspeitas gerais contra um potencial ‘inimigo oculto externo’ podem, sim, refrear o influxo migratório que faz circular o sistema futebolístico global, sobretudo o centro gravitacional do futebol moderno que são as ligas europeias de clubes, na Espanha, na Inglaterra e na Alemanha em particular”, diz Bernardo Buarque, professor-pesquisador da Escola de Ciências Sociais (CPDOC-FGV).

Empresário dono de uma agência de marketing que atua no futebol, o francês Frederic Fusser é otimista. Ele crê que o mundo da bola não sentirá os efeitos. Mas admite: “se a Frente Nacional, que é fascista, chegar à presidência do país, a Europa pode ser impactada”.

 

“Há esse risco, seria algo dramático, não só para o futebol como para a Europa inteira. Vai mudar tudo”, prevê Fusser, que atua no Brasil e tem o PSG como um dos seus clientes.

É difícil imaginar que gigantes como Barcelona e Bayern de Munique abram mão de jovens promessas africanas por uma suposta onda racista. Mas alguns pequenos e médios do continente podem preferir evitar possíveis problemas com políticos de extrema-direita e torcidas organizadas às vezes preconceituosas.

França, "legião estrangeira"

No caso da seleção da França, hoje é praticamente impossível imaginar um time sem negros ou descendentes de ex-colônias africanas - principalmente da Argélia.

Franceses e argelinos, para ficar em um exemplo clássico, protagonizam uma das mais turbulentas relações 
colonizadores x colonizados da Europa. Mais de 50 anos depois da independência do país africano, a convivência é marcada por alguma tensão e episódios violentos, com pendências históricas entre as partes. Nos ataques em Paris havia terroristas de origem argelina, assim como os irmãos Said e Cherif Kouachi, do atentado ao Charlie Hebdo. Em 1961, as forças policiais francesas massacraram manifestantes argelinos em Paris. Há desencontro sobre o número de mortos, mas fontes falam em pelo menos 200 óbitos. Corpos foram jogados no rio Sena.

Neste cenário, o futebol tanto integra quanto afasta os lados. Assim como a Argélia “deu” Zidane para a França, as torcidas estão longe de uma convivência pacífica, fruto de feridas abertas o longo da história.

“O impacto das fissuras da Guerra da Argélia no imaginário francês é muito forte”, diz Buarque, que lembra a última vez que as seleções se enfrentaram, em outubro de 2001, no mesmo Stade de France alvo de terroristas no dia 13 de novembro.

“Uma partida entre Argélia e França no Stade de France, com a presença de 70% de argelinos, foi marcada pelas vaias à Marselhesa, o hino marcial francês. Desde então, não se fizeram mais jogos entre os dois selecionados naquele estádio”, conta o professor.

Benzema

Nome certo em quase todas as convocações francesas, até ser afastado por suspeita de participação em uma chantagem contra Valbuena, 
Benzema se recusa a cantar o hino. O silêncio é uma reação à direita francesa, contra os não franceses “puros”, que deu uma nova conotação a um trecho da Marselhesa.

No caso de Benzema, na esteira das acusações, velhos questionamentos sobre a postura do jogador em relação a sua origem vieram à tona novamente. O atleta foi suspenso da seleção e parece 
cada vez mais distante dos Bleus. Pelo menos até a bola rolar.

“Por outro lado, desde pelo menos a geração de Zidane, é notória a dependência francesa de jogadores de suas ex-colônias, o que torna a situação de impasse ainda mais delicada”, completa Buarque. Ou seja, se a França ou outros países como a Bélgica quiserem se fechar contra os estrangeiros, que estejam preparadas para sentir no campo.

No “novo rico” Paris Saint-Germain, Buarque cita problemas na arquibancada. “Em determinadas franjas da torcida do PSG, havia territórios cujos códigos eram de negação à presença de espectadores de origem negra e migrante”, diz o professor, que realizou um acompanhamento etnográfico da temporada 2008-2009 do Campeonato Francês. Segundo ele, é possível que o mesmo comportamento contamine o campo.

“Na nova conjuntura, o risco de represália a atletas existe, numa acentuação de discursos xenofóbicos, típicos de uma direita extremada que vem ganhando novo folego nos últimos anos”, ressalta.

Por enquanto, o efeito é visto somente na suspensão de jogos por medo de atentados. “Como estádios de futebol são espaços de trânsitos e reunião de pessoas de diversas procedências, eles acabam por se tornar um alvo de temor a mais para as autoridades, implicando em vigilância redobrada”, afirma Buarque. Isso a poucos meses da Eurocopa, que terá justamente a França como sede.

“O país está preparado. Antes mesmo dos atentados, a França já tinha essa preocupação. Mas vamos ter que aprender a viver com isso”, diz Fusser.

A partida entre 
Alemanha e Holanda, marcada para o dia 17 de novembro, foi cancelada após a polícia de Hannover encontrar explosivos nas proximidades do estádio. No mesmo dia, a bola rolou em Wembley para França e Inglaterra. Com a presença de chefes de estado e até o príncipe William, o público inglês superou uma rivalidade secular e cantou a Marselhesa.

Em campo, a 
Inglaterra venceu por 2 a 0, com gols de Rooney e Dele Alli, um jovem de 19 anos, filho de pai nigeriano, que poderia defender a seleção africana se quisesse.



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