
Caso o Poder Executivo e o Congresso não encontrem solução definitiva para o quadro econômico e financeiro do país, a saída para a alta inflação e para a recessão econômica deve ter um alto custo a longo prazo para a população: o aumento do desemprego.
De um lado, economistas sugerem que os juros sejam diminuídos para destravar investimentos. De outro, o ajuste do quadro fiscal é apontado como inevitável para a estabilização do país.
Enquanto o governo parece não optar pelo primeiro caminho, o segundo tampouco se concretiza. A indefinição pressiona o câmbio, fazendo com que a retomada se projete sobre o setor exportador, que fica mais competitivo. O retorno da inflação em direção ao centro da meta surgiria via deterioração do mercado de trabalho e redução da renda real.
Para René Garcia, professor da Escola de Negócios EDHEC, as soluções para o país voltar a crescer não são debatidas com a transparência necessária. "O governo foi incapaz de apresentar uma solução de longo prazo e não deixa claro que o ajuste vai se dar pela perda de renda. É uma questão de informação", afirma.
Esta semana, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a taxa de desemprego do Brasil subiu a 8,6% no trimestre encerrado em julho, renovando o nível mais alto da série histórica iniciada em 2012.
Em agosto, o Brasil fechou 86.543 vagas formais de trabalho, no quinto mês seguido de retração. Segundo dados do Ministério do Trabalho, ao final de 2015 pode haver perda de mais de um milhão de empregos.
Carlos Alberto Ramos, professor do Departamento de Economia da UnB, aponta que o desemprego ainda deve aumentar. “Você tem uma queda do PIB esse ano e do ano que vem também, então isso vai gerar desemprego. Também vai aumentar a forma precária de emprego, aquele por conta própria, aquele sem carteira de trabalho assinada", afirma.
Com mais pessoas buscando emprego, o nível salarial desce, como explica o professor Fábio Kanczuk, professor do Departamento de Economia da USP: "Desemprego é sempre meio atrasado com relação ao PIB. Com o PIB esse ano na casa de menos 2,5% e o desemprego em torno de 8,5%, estará em torno de 9,5%, 10% no futuro. E com desemprego maior, o salário real vai cair”.
Um horizonte de recuperação da renda só é vislumbrado junto da volta do crescimento, avalia Patricia Krause, economista-chefe para América Latina da Coface. “É tudo bem hipotético, ainda é cedo com esse cenário político turbulento. É possível que em 2017 já exista algum tipo de aumento do PIB, mas não suficiente para recompor a perda de 2015 e 2016" explica a economista.
"Se conseguirmos chegar a uma inflação mais baixa até o final do ano que vem, em 2017 já pode haver uma melhora no nível de renda, um aumento em relação ao ano anterior. Este ano certamente teremos uma redução, uma queda da renda real", acrescenta Krause.
De acordo com o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central na segunda-feira (28), a retração do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano será de 2,8%. Se a previsão se confirmar, será o pior resultado em 25 anos.
Jardel Leal, economista do Dieese, avalia que a mobilização dos trabalhadores pode frear o movimento de queda da renda, fazendo com que a previsão precisa das perdas seja difícil. "Há a resistência dos trabalhadores diante de aceitar que paguem o preço dessa crise”.
Jornal do BrasilPedro Leite
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