
“O aumento unilateral de tarifas por parte dos EUA envia um sinal de instabilidade aos demais parceiros comerciais do Brasil, gerando receios quanto à previsibilidade dos acordos. Essa ação pode ser replicada por outros países, seja como retaliação, seja como medida defensiva diante da volatilidade internacional”, destaca.
Mesmo com a visão negativa que o anúncio já traz, João Alfredo Nyegray avalia que o caminho a percorrer para reverter a situação não vai na linha da retaliação brasileira.
“O Brasil pode — e deve — tentar abrir canais técnicos e diplomáticos de negociação direta com autoridades americanas mais moderadas, como membros do Congresso, do Departamento de Estado e do setor empresarial que se vê prejudicado com a medida. Uma abordagem híbrida, que combine diplomacia direta, articulação multilateral e apoio regional, parece ser a mais prudente neste momento", completa.
Embora o Brasil tenha diversificado os destinos de suas exportações, Nyegray observa que o país ainda depende dos Estados Unidos como parceiro estratégico em setores de alto valor agregado — especialmente no agroindustrial, em insumos alimentícios e em manufaturas leves.
O tarifaço compromete essa competitividade de diversas formas:
Para Jéssica Kaminski, é necessário focar em três frentes para se proteger de possíveis futuras tarifas:
Em entrevista ao Conexão Record News desta quarta-feira (23), Leonardo Trevisan, analista internacional, aponta que um negociador de Tóquio fez oito viagens consecutivas a Washington para discutir as tarifas comerciais impostas pela Casa Branca.
“O Japão em momento nenhum falou em retaliação. Esse ponto me parece importante para a gente analisar as coisas”, comenta
O especialista considera que a nova resolução comercial “vai custar caro” para os japoneses, que terão de investir quantias anuais em torno de US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões, na cotação atual) na economia norte-americana.
A economista Carla Beni, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), destaca que o Brasil é internacionalmente reconhecido pela postura aberta ao diálogo.
“Essa é a primeira questão. Mesmo quando falamos da Lei da Reciprocidade, o primeiro patamar da lei é o diálogo. O segundo é acionar os organismos internacionais, e só o terceiro é definir, com o comitê, quais seriam as medidas comerciais — e aí, sim, as retaliações a serem aplicadas”, pontuou, em entrevista à Record News nessa quarta-feira (23).
Carla também explica que a situação deve ser pensada em “câmera lenta”, ou seja, passo a passo. Alguns dos principais produtos exportados pelos EUA são manga, pescado, carne e café. Por isso, segundo ela, o empresário deve analisar se a carga já embarcou, se o produto é perecível e se existe a possibilidade de redirecionar para outros compradores internacionais.
Um possível impacto nos empregos, segundo a especialista, é uma preocupação posterior. “Enquanto tudo isso está acontecendo, não se vê, inicialmente, a necessidade de demissões. No Brasil, temos dois custos muito altos: a demissão e o treinamento. Depois, para recontratar e treinar, sai muito caro”, analisa.
A economista também classifica o cenário atual como um “grande jogo verborrágico”, com muitas ameaças — o que gera preocupação entre países envolvidos e exportadores, mas também pode se tratar de uma estratégia para conseguir negociar.
O professor de economia Hugo Garbe explica que o Brasil é mais dependente economicamente dos Estados Unidos do que o contrário — o que limita a margem de confronto direto.
“O Brasil não tem capacidade econômica para entrar nesse embate com Donald Trump. A diplomacia brasileira precisa ser racional e estratégica neste momento, buscando trazer os EUA à mesa de negociação para tentar reduzir essa tarifa”, afirmou.
Do R7
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