
Desde a redemocratização, Lula se especializou em construir campanhas em torno de antagonistas claros. Foi assim com Collor, Fernando Henrique, Serra, Alckmin e, nos últimos ciclos, com o próprio Bolsonaro. Nas eleições de 2022, esse embate direto com a figura do ex-presidente permitiu ao petista vencer por margem estreita, apostando em um discurso de “salvador da democracia”.
Agora, sem conseguir embalar seu terceiro mandato com entregas expressivas ou projetos de forte apelo popular, Lula vê na anistia a Jair Bolsonaro um caminho para reativar o sentimento de urgência que mobilizou o eleitorado progressista dois anos atrás.
“Com Bolsonaro de volta ao páreo, Lula reencontra um inimigo conhecido e tem a chance de repetir a fórmula que o levou ao Planalto em 2022: o medo do autoritarismo versus a defesa da democracia”, avalia o cientista político Maurício Santoro.
Mesmo com políticas como o programa Pé-de-Meia e a distribuição massiva de botijões de gás, o governo Lula tem patinado para construir uma identidade própria neste terceiro mandato. A avaliação negativa do governo cresceu nas últimas pesquisas, enquanto a aprovação segue estagnada.
Além disso, erros de comunicação, embates institucionais e o desgaste de aliados — como o caso das sanções americanas ao ministro Alexandre de Moraes — colocaram o governo sob pressão. Nesse cenário, a figura de Bolsonaro livre para concorrer em 2026 pode funcionar como o fator externo capaz de reconfigurar o debate eleitoral e unir novamente os eleitores de centro e esquerda em torno de Lula.
A anistia que pode salvar os dois lados
Embora Lula siga dizendo ser contrário à medida, a anistia a Jair Bolsonaro tem crescido no Congresso Nacional. O presidente sabe que, se o ex-capitão for anistiado, sua volta ao jogo obrigará o Brasil a reeditar o velho confronto eleitoral de extremos. E isso pode ser tudo que Lula precisa para reavivar sua base.
Para o eleitor, a equação será a mesma: entre um governo com problemas, mas democrático, e a volta de um líder associado a discursos golpistas, qual será a escolha?
É essa dúvida que pode, ironicamente, transformar a anistia a Jair Bolsonaro em uma das principais apostas de Lula para 2026 — mesmo que ele jamais a admita publicamente.
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